A anatomia como recurso tecnológico 

 

Desde o início de sua sistematização científica, a Anatomia apareceu como substância temática na arte, figurando já com Michelangelo (e logo depois com maneiristas e barrocos) como fulcro da representação – ou seja, para além de suporte ou mera ferramenta artística. Na contemporaneidade, a Anatomia apresenta ainda a novidade de funcionar como um objeto de estudo que, impondo seus dispositivos metodológicos, transforma a imagem em um vasto campo de investigação.


Consideremos que uma aproximação deste gênero foi o que estabeleceu as condições da criação artística “realista” no Renascimento – momento em que Medicina e História da Arte se confundiram. A interação entre essas áreas do conhecimento, inclusive condicionou a atuação artística do período na medida em que pautou o aprendizado técnico do artista. Do mesmo modo que, na Grécia clássica, a Ilíada organizava o ensino dos jovens gregos – servindo como tratado de náutica, teologia, política, retórica, etc. – desde as primeiras reuniões de artistas em meados do século XV (até começo do XX), a figura humana vista sob a perspectiva anatômica foi a disciplina que vertebrou o ensino da arte.


Hoje essa interação, que nunca cessou de todo, volta a ressignificar ambos os campos. Se a poiesis pode revelar caminhos ao pensamento científico desaparelhando o tecnicismo, a imagem anatômica, por sua vez é capaz de desencadear uma articulação processual “tecnológica” no interior da prática artística. Um exemplo já aventado desse processo é o telescópio. Quando Galileu Galilei alterou seu uso comum destinado à observação marítima e o apontou para o céu (gesto que iria revolucionar a Ciência), o telescópio passou a demandar novos estudos em Ótica, Física e Astronomia, tornando-se um aglutinado técnico gerador de novas possibilidades científicas. Essa mesma operação de retroalimentação é induzida pelas imagens anatômicas no campo da arte, a qual ressitua a Anatomia, potencializando assim a ambas.

Da ciência, da arte ou do Real? 

 

A Anatomia equacionou a questão da pertinência, e consiste hoje num repertório híbrido e compartilhado do qual ciência e arte usufruem. Pertence tanto à primeira, que fez dela objeto de estudo possibilitando seu surgimento, quanto à segunda, cuja apropriação tornou possível esse conteúdo que, afinal é indissociável da visualidade. Essa relação de mutualismo abre espaço a todo tipo de questões. Aqui levantamos uma: sua relação com o registro do “Real”.


Certamente não é apenas a dimensão morfológica da Anatomia o que interessa a esses artistas. O domínio orgânico-funcional do corpo está longe de representar sua totalidade. Que corpo está em jogo nestas imagens? Não indicariam a busca por um corpo além do objeto cientifico, um corpo Real, que vai sendo figuralmente tecido através das imagens? A procura cada vez mais constante por esse Real (categoria central de estudos psicanalíticos que se refere a uma dimensão traumática, impermeável à formulação) é sintoma imprescindível para compreensão da produção artística recente.


Parte da vertente artística que efetua esta busca – em parte representada na mostra Anatomya – lança sua sonda investigativa cada vez mais longe: às entranhas do que resta do “sujeito contemporâneo”, multifacetado – que ora submerge desmembrado e diluído, ora emerge sob novas coordenadas na produção artística recente. A anatomia é campo privilegiado deste tipo de questões, compreendida como sinônimo do Real, de vida ou morte, religiosidade, ou alegoria da própria relação de domínio científico sobre o corpo.


Para uma outra Anatomia  

 

O rigor indispensável às Ciências da Saúde na compreensão de seus objetos de estudo é sempre redimensionado no território artístico. Aproximam-se ciência e arte enquanto campos de experimentação, mas divergem em seus métodos: a repetição sistêmica do laboratório é substituída pelo acidente; o pragmatismo torna-se contemplação desinteressada; a especialização cede lugar à perspectiva da totalidade estética... Há uma dimensão, entretanto, em que arte e ciência se encontram de modo indissociável: a da “representação”.


Os trabalhos desta mostra engajam-se numa tendência mundial de retorno à mimesis – que vem sendo renovada nos últimos quinze ou vinte anos por uma geração singular de jovens artistas atentos às questões da tradição e da técnica. A representação realista volta a figurar, revelando mais uma vez, de forma definitiva, a intersecção com o grande campo de “representação” da Ciência. E é justo na imagem que esta aproximação se revela (uma vez que a abstração representacional é um procedimento transversal): ao cirurgião, o preferível realismo fotográfico pode, para fins didáticos, abstrair-se em esquemas ilustrativos – assim também no desenho de estruturas químicas, por exemplo. Igual procedimento se dará na Astronomia e na Física, onde a caracterização de corpos celestes muito distantes, bem como a de estruturas celulares muito ínfimas, baseia-se em conceitos abstratos e aferições por cálculo (quer dizer, em representações).


Já desde o esquematismo típico das ilustrações anatômicas somos informados acerca da familiaridade entre arte e ciência – o que lhes atribui mesmo grau de importância e notabilidade. Vale lembrar que o registro anatômico surge quando nem a ciência, nem a arte estavam de todo circunscritas, tendo servido mutuamente à constituição desses campos. Vivemos novamente um período de aproximações em que a arte, assumindo a diligência epistemológica da ciência, e esta se deixando inspirar no desaparelhamento da racionalidade – podem refundar de modo profundo seus saberes e práticas.

 

Manual de Anatomya:

O elevado número de artistas da mostra Anatomya é uma seleção bastante representativa de três segmentos da produção atual que operam com enorme eficácia no campo da representação figurativa do corpo, ora propostos apenas como um guia de leitura e fruição das obras que também podem ser lidas sob outras chaves, uma vez que as abordagens se atravessam.

A pele interior
 
Estas obras apresentam múltiplas dimensões de ocultamento/revelação da figura, a partir de conteúdos de alta densidade conceitual e técnica. Ora com forte lastro na tradição, ora inovando em questões de âmbito formal, mostram-se capazes de informar dimensões atualizadas do corpo através do desdobramento de reflexões.

Les Corps Nouveau
 
As produções que seguem adotam uma rica gama de integração estético-formal entre os motivos naturais e a Anatomia Humana, com inspiração em elementos florais que nos remetem à Art Nouveau – abrindo um campo de distensão conceitual.

Desanatomia
 
Ao replicar o processo típico da dissecação anatômica, mas ressignificando suas coordenadas, a ilustração cientifica ganha aqui status artístico na forma de indagações visuais através de engenhosas inversões na gramática das imagens.

 

Gustavot Diaz

 

 

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