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_ Nestor Jr

Por Jade Kastrup

 

ArtBio: De um modo geral, a sociedade cultiva a ideia de que trabalhar com arte é extremamente penoso, o que pode servir de desestímulo a novos talentos. Como você analisa o cenário e o mercado artístico atuais?

Nestor Jr: Verdade! Eu cresci ouvindo isso em casa e continuei ouvindo depois, tanto de quem está dentro do circuito das artes como de quem não tem nele a base do seu ofício. A arte é vista muito mais como prazer/hobby do que como trabalho. O que eu acredito e posso dizer – e, claro, isso acaba se baseando na minha vivência – é que, de fato, não é um caminho fácil e seguro, mas ele existe.

Mas esse caminho já foi muito mais complexo. A internet vem colaborando para o diálogo entre jovens artistas, curadores, galeristas e público, e, numa perspectiva de mercado, isso abre muitas portas. O desdobramento desses diálogos continua e tem cada vez mais gente criando e comercializando objetos de arte, design e outras linguagens que vêm se fundindo nesse contexto. Um exemplo são as muitas feiras de impressos que têm surgido por todo canto do Brasil.

Enfim, acho que caberia uma reflexão maior sobre isso, com estudos mais concretos, mas vejo muitos amigos das artes visuais, do teatro, do cinema, da música, encontrando seus espaços e conseguindo levar seus trabalhos adiante. No fim, continuará criando quem não pode fazer outra coisa, sendo isso um trabalho remunerado ou não.

ArtBio: Atualmente as barreiras e segmentações estão cada vez mais obsoletas dentro da arte. As diversas formas de expressão artística se encontram e dialogam entre si. Você percebe outras influências na sua trajetória artística e nos seus trabalhos?

Nestor Jr: Engraçado isso! O que me levou para as artes visuais foi o cinema. No início dos meus estudos, era algo que me inspirava a criar. Essa barreira derrubada das segmentações é muito rica e eu gosto muito da ideia de poder transitar por diversas linguagens.

ArtBio: Suas obras são carregadas de erotismo e tocam em tabus da nossa sociedade, como a liberdade sobre a estética dos corpos e a liberdade sexual. De que forma você percebe a crescente onda reacionária responsável por constantes manifestações de ódio e intolerância no mundo?

Nestor Jr: Ela sempre esteve por aí, né?!  Acho que ela está sendo mais percebida justamente porque está sendo mais questionada, combatida. As pessoas que têm esses discursos, muitas vezes velados, sempre estiveram aí e estão chamando mais a atenção agora porque muitos estão acordando para os seus direitos. As ditas minorias querem direitos sobre si mesmos e seus corpos, ir e vir sem ferir direitos dos outros. A causa dessa onda me parece muito o medo, a ignorância.


Em relação ao meu trabalho, essa libertação nunca foi pensada como luta mas como uma naturalização dessa questão. Eu, quando pintava, não imaginava que os trabalhos viriam à luz. Eu criava coisas para mim, para resolver questões minhas. Óbvio que quando começou a circular – e eu nunca impedi – acabou virando uma marca do meu trabalho. Mas nunca foi pensado como bandeira, e sim, de uma forma natural.

 

 

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